domingo, 10 de junho de 2012

A educação na esquina do desencontro permanente - por Antônio Paulo Rezende

A educação na esquina do desencontro permanente




As greves se sucedem. Parece que há uma falta permanente de juízo mínimo. Os governos falam de milhões para salvar as escolas, de tecnologias ditas avançadas, de projetos mirabolantes para acabar de vez com  o analfabetismo. Ouço essa conversa desde pequeno. Não era, ainda, professor. A situação não era tão caótica. As escolas públicas tinham um espaço respeitável A queda foi se avolumando, o ensino sendo privatizado e os salários dos trabalhadores na educação murchando. Como estamos numa sociedade de hierarquias financeiras existem aqueles que conseguem boas vantagens nos seus investimentos. É uma minoria que consegue montar escolas sofisticadas que atendem a pequena parte da população.
As greves se sucedem, porque os limites salariais são incríveis. Quando surgem as polêmicas, todos se assustam com o cotidiano milagroso dos professores. Imagine a carga horária a ser cumprida com a finalidade de juntar mais uns trocados e diminuir o sufoco! É um abismo escuro e sem fim. Se não há tempo para estudos, como o profissional aprimora conhecimentos? A opressão é visível, esgota fisicamente, desencanta. Não deveria ser comum protesto na área da educação. O descuido é grande, a reflexão dos governantes é pragmática e mesquinha. Falta mão de obra, sobra receio. Quem  entusiasma-se com a pedagogia? É um sacerdócio?
A sociedade corre em busca de lucros e não se desliga da competição. Cuidar dos filhos, escutá-los, não é tarefa fácil. As horas de trabalho tomam conta do dia e os meios de transporte não são camaradas com os deslocamentos. Há ilusões de consumo, porém o afeto se perde na primeira esquina. A escola multiplica seus deveres. O mestre não é, apenas, o aliado do saber. Muitas vezes, substitui os pais, disciplina, recita sermões, compreende desacertos. Há uma acumulação constante de fazeres, pois a sociedade se balança num trapézio sem redes. O sentido do coletivo fragmenta-se.
As greves são sinais e não recursos enfadonhos e repetitivos. Elas mostram que as escolhas desenvolvimentistas se movem no território da grana e não dos valores dignos. Quebram-se desejos de solidariedade, pois a escola retrata, também, as disputas pelo sucesso. O professor navega em mares turbulentos, encarregado de resolver suas questões e às dos outros. A educação virou uma mercadoria, com compradores e devedores. Os alunos inquietos exigem fórmulas mágicas para vencer na vida. Os vestibulares tornam-se estradas sinuosas. A confusão generaliza-se, sociedade se pune. Há ausência de planejamento eficaz para redefinir a violência do utilitarismo.
O desencontro ameaça a sociabilidade, desqualifica, atemoriza. Se a educação não se aprofunda, se os professores são esquecidos pelos dirigentes, o capitalismo se constrói na concorrência desmedida. As paralisações acontecem, não se restringem aos ensinos fundamental e médio. As universidades públicas reclamam, há deficiências gritantes, condições de convivências tensas. O esvaziamento é geral. O pior é que o eco das inquietações não se propaga. O tempo passa, novas greves pontuam as mesmas reivindicações e o cinismo volta ao seu lugar de sempre. Pensar que a cultura não respira sem a reflexão, dói. Mas existe quem discorde e se acomode…

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